Furo na cortina

A visão daqueles que fazem o espetáculo por trás das cortinas

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A visão daqueles que fazem o espetáculo por trás das cortinas
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Terra Blog

29.07.07

Número 1 Carlos Palma

   Carlos Palma

Apesar da proposta da coluna ( colher informações daquelas pessoas indiretamente ligadas ao processo final do fazer teatro, como camareiras, administradores, técnicos), não poderia deixar de colocar aqui esse depoimento. Carlos Palma, ator, diretor, produtor, pensador de teatro, vem se destacando por espetáculos que fazem da ciência um poderoso instrumento de reflexão sobre a vida humana. Este depoimento me foi gentilmente enviado alguns anos atrás. Eu havia assistido Copenhagen no último dia de sua temporada no Ruth Escobar, e saí decidido a entrar em contato e consultá-lo sobre seu processo de criação. Aí vai.

Histórico

Me iniciei no teatro amador/universitário em 69, na minha terra Ribeirão Preto, onde pratiquei até mudar-me para SP em 78. Costumo dizer que tenho duas formações, no teatro amador e na EAD (79/80/81).
No amador, pela época que vivíamos, com as pessoas que nos lideravam, pela luta política que se empreendia naquele momento, o teatro que fazíamos favorecia um entendimento mais rápido e substancial de qual era a função do teatro, sua importância social, política e humana (mesmo sendo utópica). Dos meus 15 aos 24 anos líamos e montávamos Brecht, Ionesco, Guarnieri, Sartre, e até o velho e maravilhoso Nelson. Tudo sem muita metodologia, sem um esquema sistemático de aprendizado.
Tudo na pura intuição e entusiasmo. Apesar de caótico era bom pois pensávamos que era possível mudar a cara das coisas. Abro um parêntese para dizer que iniciava aí uma outra carreira, a de diretor de arte e ilustrador, pois sempre gostei de lidar com os processos criativos, e esta era a maneira de conseguir minha intromissão no mercado de trabalho legal. Até hoje de maneira mais conseqüente pratico esta atividade (não crio nada que vá contra qualquer dos meus princípios, nunca mais fazer malinhas diretas, marquinhas e anúncios bobos de coisas idiotas). Porém nunca é atoa o que você faz. Esta minha experiência veio contribuir fundamentalmente para organizar e criar nossos projetos, sua comunicação, descobrir seu mercado e por aí vai. Fecho o parêntese. Na EAD, a melhor escola e escolha que fiz, talvez os melhores dos meus anos escolares. Por me dispor a exercitar, perguntar e provocar.
A minha passagem na EAD não foi em brancas nuvens. Conheci excelentes professores, profissionais com que trabalhei naquele momento, fiz boas amizades e me permitiu novamente me intrometer no mercado de trabalho do ator em SP. Sempre junto com a tal da publicidade. Na década de 80, trabalhei com mestres como Miriam Muniz, Antônio Abujamra, Ulisses Cruz. Outros como Pablo Moreira,
Antônio Gigoneto, Augusto Francisco. Atrizes como Barbara Fázio, Françoise Furton, Tânia Bondezan, Wanda Stefânia, etc.


Impressões sobre o trabalho de ator

Tudo isso para dizer que acho que quanto mais se trabalha conscientemente, mais o tempo passa, melhor você pode ficar. Sem dúvida o trabalho de observador constante da fisionomia humana, do paralelo que sempre se deve fazer entre você e os outros, tentando sair do "centro do universo" e se deslocar para a periferia e tentar de todas as forma se observar. Ser observador de si mesmo. É difícil. Uns chamam de autoconsciência. Mas não é isso que os professores de todas as disciplinas nas escolas de teatro devem tentar? É difícil. O nosso exercício constante e sem fim é de buscar até mesmo no momento da representação se colocar como observador, platéia e fazer o julgamento mais preciso sobre como você está atuando. Fazer o duplo. Estar nos dois lados ao mesmo tempo. Com as reservas de uma autocrítica construtiva. Sem megalomanias (ai como sou bom!, essas coisas). Ter o objetivo da comunicação precisa que o personagem exige. Pela voz, pelo corpo, pela inflexão da palavra, pelo olhar, pelo gesto, pelo sussurro, pelo grito, pelo resmungo. Pelo timing. Isto não nasce no primeiro dia de ensaio e nem termina no dia da estréia. É uma pesquisa constante. Mas, é claro que você estréia com um registro mais ou menos certo do que você quer. O que vem depois é desenvolvimento, aprimoramento. Tudo isso por que acho que o ator é e deverá sempre desenvolver sua capacidade de sedução (no melhor dos sentidos). Qualquer personagem, até mesmo um Macbeth, deve seduzir, conquistar a platéia pela razão e pelo coração. Deixar a platéia na dúvida se o mau ou o bem convivem ali naquele personagem.
(Quando dizem que determinada pessoa tem carisma, é simplesmente por que tem uma capacidade de seduzir, aglutinar, conquistar, se comunicar.) Por outro lado acredito na força dos ensinamentos de Stanislavisky. O processo mental da memória, com todas as suas armadilhas, continua sendo a melhor maneira de vivenciar problemas alheios. Os processos físicos que determinam objetivamente o que você quer em cena. Isto tudo no caldeirão da representação pode nascer a surpresa, a espontaneidade que todos nós atores muitas vezes sofremos em tentar obtê-la. Tudo deve parecer novo. "Criado" naquele momento. Como se fosse tudo uma grande improvisação, onde nem você ao representar e nem a platéia ao assistir saberão aonde irá parar.

É aquela velha história: a platéia veio sabendo que será iludida, nós sabemos que estamos ali para iludir. Esta mágica deve ser sempre perseguida. Quando um espetáculo de teatro me impacta é por que me "iludiu", me fez caminhar por um caminho que não imaginava percorrer e me levar a algum lugar que não supunha chegar. É evidente que quando falamos de espetáculo, precisamos de um bom texto, uma direção corajosa, uma equipe equilibrada, e atores precisos. Hoje já não posso perder tempo com bobagens em cena. Depois de fazer "Einstein" e "W.Heisemberg" e ver o alcance que suas idéias, duvidas, e vidas, fico com a certeza que o teatro é um lugar muito especial que quem para lá se dirige dificilmente esquecerá o que ouviu ou sentiu. É muito sério, mesmo quando ele provoca o riso. Hoje estou lendo evidentemente muito sobre ciência, e recomendo vários livros: A Dança do Universo, do Marcelo Gleiser,
O Ponto de Mutação, do F. Capra, O Universo Elegante (esqueci-me do autor), mas é atualíssimo.
Esta literatura é para leigos, mas ajuda até na hora de representar, você obtém uma idéia muito boa sobre os processos de criação desses homens fantásticos que são os teóricos da física, que no fim não fica nada longe dos nossos processos quanto atores.
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