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Max Schiftan atualmente é administrador do Teatro Folha no Shopping Higienópolis. Este depoimento foi concedido em 08 de outubro de 2003.
Sei lá, acho que história tem. Eu fiz muito tempo show. Eu viajei com show. Aí na verdade eu comecei a administrar teatro, mais ou menos em 83, 84. Comecei lá no Teatro Carlos Gomes no Rio. Que era um teatro que o Poladian comprou, ele arrendou esse teatro pra fazer alguns espetáculos no Rio. Então nós fomos lá pra cuidar do teatro.Você imagina um teatro antigo, na praça Tiradentes, nós paulistas, paulistanos, com um monte de técnico carioca, que estavam acostumados com o ritmo do Rio de Janeiro que é todo diferente, não que lá seja ruim, lá tem ótimos técnicos, lá tem gente maravilhosa, os iluminadores lá são maravilhosos. Mas era outro ritmo. A gente chegando de São Paulo na praça Tiradentes, um negócio meio: Tiradentes, Largo da Carioca que um lugar que é o Rio de Janeiro puro. Que é a mesma coisa que você vim do Rio e chegar aqui na Bela Vista, chegar dez caras do Rio e: “agora nós vamos tomar conta desse teatro na Bela Vista”. Foi meio complicado, mas depois a história vai se ajeitando, porque era um teatro maravilhoso. Teatro Carlos Gomes, era um teatro que estava todo caindo. Aí nós fizemos reforma, fizemos banheiro, camarim, quer dizer, nós fizemos uma puta reforma no teatro. Estreou, eu lembro que estreou a Miriam Rios, ela estreou esse teatro. Na época ela tava com o Roberto Carlos, era um espetáculo infantil, era uma Cinderela, Roberto Carlos ia assistir os ensaios. Estreou, ficou um tempo em cartaz, foi bem, claro, teatro da mídia, na época era uma puta mídia aquele teatro. Aí foi tempo, teve Ney Matogrosso lá, aí já era mais Show. E aí nós fizemos um carnaval no Rio de Janeiro, porque no Carlos Gomes há muitos anos atrás faziam um carnaval, aqueles carnavais tradicionais, bailes à fantasia do Rio de Janeiro, e nós fizemos um baile de carnaval. Tentaram fazer com que tivesse de novo os bailes de carnaval do Rio, não rolou, teve uma noite só o carnaval e acabou. Foi uma noite de carnaval. Foi daí que nós voltamos do Rio. Fechou o teatro lá, hoje o teatro tá na mão do Aderbal Freire. Aí volta pra São Paulo, depois de um tempo, eu peguei o Ruth Escobar, viajei com algumas peças, mas a minha vida era mais no Ruth Escobar. Desde 89. E no Ruth né? Três salas, um teatro enorme, e sempre tem algumas passagens. Todo mundo fala “Não! Você é maluco! Porque você viu isso!” Uma vez eu tava no porão, o porão do Ruth Escobar, o porão da Gil Vicente. Lá é o porão mais tradicional de São Paulo, acho que é o porão mais famoso de São Paulo, que é o do Ruth Escobar, da Gil Vicente. Dizem que aquele porão era um cemitério indígena. Dizem não! É verdade! Quem viveu ali sabe que o porão da Gil Vicente era um cemitério indígena. Ali é um morrão. Porque se você desce do saguão do Ruth até lá em baixo é um prédio de oito andares pra baixo, até o porão. Ali era um cemitério. E ali alagava. Porque ali tinha uma fossa, que tem até hoje, e aquela fossa transbordava. Então você imagina que aquele porão, que é um porão alto pra caralho, ficava lotado de merda. Era só merda aquele porão interio. E aí você tinha que entrar pra pegar alguma coisa lá e você tinha que entrar na merda. Porque o porão ficava lotado de merda. Ele ficava assim uns, dava um metro de merda. Ali se falava que morreu um cara, que morreu um eletricista. Eu não sei se é verdade isso, em 62, 63, um cara tinha morrido na parte elétrica. Porque a água cobria tudo, inclusive a parte debaixo do palco e os atores ficavam em cima, e subia um puta cheiro, e aquilo invadia pro público. Mas mesmo assim lotava, porque teve o Ubu lá lotado, Almanaque Brasil lotado, mesmo nessa época que ficava um puta cheiro de fossa, porque é inevitável né? Aí depois fizemos o encanamento. Isso resolveu. Bombeava água pra rua. Mas no começo era isso mesmo. No começo, isso já em 80...porque o teatro Ruth Escobar foi reformado do saguão pra cima, e do saguão pra baixo ele não foi reformado. Ficou como era desde 63, que estreou o teatro com a Ópera dos três vinténs. Estreou em dezembro de 63, acho que dia 03 de dezembro de 63, se não me engano, que abriu o Ruth Escobar. Aí eu me lembro um dia que eu tava sozinho lá na sala Gil Vicente, eu tava pintando parede. Tem gente que não acredita, tem gente que acretida. Eu tava pintando sozinho lá. Aí eu vi uma mulher subindo as escadas do camarim. Continuei lá né. Aí eu olhei assim de novo a mulher voltou. Eu tô sozinho, vou ver quem é. Aí eu subi, quando cheguei, falei: “Cara quem é essa mulher que tá andando por aí?” Aí o Zé Carlos, que era um cara que tinha lá, Zé Carlos era um cara que cuidava lá...disse: “Não! Não tem ninguém no teatro. Só tá eu e você.” Falei: Não! Nem fudendo. A mulher passava lá, tô pintando aqui e essa mulher passando ali. Porque lá tem uma passarela que é dos camarins. Na boa, eu procurei, procurei, revirei o teatro e não achei essa mulher. E conversando com as pessoas, “aqui foi cemitério indígena, até pode rolar”, sei lá...

criado por Dulion
23:19:37