07.08.07
Número 2 S. Careca primeira parte
Depoimento do Sr. Careca
16 de Março de 2004
Eu comecei em 1947. Eu sou Carlos Pereira de Mello, pseudônimo “Careca”. Um homem que começou em teatro em 1947 com Sebastião Prata, mais conhecido como Grande Otelo e Oscar Teresa, mais conhecido como Oscarito. E Violeta Ferraz, a Dona Conchita de Moraes que simplesmente é a mãe da Dona Dulcina de Moraes. De lá pra cá, com treze anos de idade, eu passei a trabalhar com Walter Pinto, com Eva Todor e correndo minha vida pelos teatros. Mais precisamente no Teatro Recreio no Rio de Janeiro, que naquela época você tinha revista e comédia, ópera e opereta, que não existe mais hoje. A Secretaria Municipal da Cultura tem, aqui em São Paulo, dezessete teatros sob a batuta dela. Antigamente eram teatros particulares. Existia o Teatro das Bandeiras, existia o Teatro São Paulo, existia o Teatro Alumínio. A Nicete Bruno e o Paulo Goulart, aqui em São Paulo, começaram no Teatro Alumínio. E eu montei muita peça lá nesse teatro. Ficava na frente de um ponto de bonde que subia a Rua Santo Antônio, ali por trás da Câmara Municipal. Depois eu fui trabalhar no Teatro Brasileiro de Comédia. E lá no Teatro Brasileiro de Comédia eu fiz muita peça lá, trabalhei com a falecida Cacilda na Dama das Camélias no período de, se eu não me engano, 1957 por aí, não sei o período exato. E aí vim tocando a vida, desenvolvendo teatro. Trabalhei com Ciro Del Nero. O TBC foi a primeira escola de “função” cultural aqui em São Paulo. O TBC foi uma coisa assim impressionante. O Teatro Oficina então também foi uma das coisas lindas. Só que a comunidade teatral hoje em dia, ela não é a mesma de antigamente. Porque naquela época não existia televisão. Então o povo, ele ia para o teatro. Hoje existem locadoras de filme, existe a própria televisão, existe televisão à cabo, então fica meio difícil de você combater...e a classe teatral foi se desestabilizando, mas isso não porque...essas coisas né? Porque naquela minha época, antes da televisão, existiam três famílias dentro do teatro brasileiro, que comandavam a classe teatral. E que sinceramente, eu sempre digo, não tenho nada a favor nem contra essas famílias, mas foram famílias que quando surgiu a televisão eles abandonaram o teatro. E nós ficamos órfãos de pai e mãe. Os remanescentes daquela época poderão até, talvez, nem admitir isso que eu estou falando. Mas existia a família Pêra, a família Celestino e a família D’Ávila dentro do teatro brasileiro. Porque era, no momento, quem comandava as coisas no teatro. Era o Vicente Celestino, era o Walter D’Ávila, era o Manuel Pêra, que é pai da Marília. Então a televisão surgiu lá na Urca, tinha o Cassino da Urca, e eles foram pra lá, e aqui em São Paulo foi aqui na Rua das Palmeiras, depois foi na Sete de Abril. A gente ficou assim meio abandonado, porque as pessoas que foram para a televisão, foram e se armaram na televisão. E o teatro foi ficando, foi ficando, foi ficando...e tivemos aqui grandes lutadores pelo teatro de São Paulo. Porque quando eu vim pra cá em 1949, um ano depois que o TBC foi inaugurado...o TBC foi inaugurado em 1948, se eu não me engano. E eu vim no final de 1949. Foi quando eu comecei a trabalhar como cenotécnico. Trabalhei com o Arquimedes, trabalhei com o Jarbas Loto, trabalhei com o Maranhão que foi presidente do sindicato, que liderou o sindicato para a classe teatral. Nós tínhamos uma casa lá em Santo Amaro...não, na Vila Olímpia que era a casa do artista daqui de São Paulo, como foi a casa do artista lá do Rio de Janeiro em Jacarepaguá. Mas que ficou em demanda com um cara que chegou a ser presidente do sindicato dos artistas profissionais, atores, atrizes e técnicos do Estado de São Paulo. Que era na, se eu não me engano, na rua que ia sair ali na Estação da Luz...Cásper Líbero ou Líbero Badaró...já não lembro. Era ali. Dali esse...o Maranhão, em campanha maravilhosa, transformou a nossa sede pra Avenida São João, lá onde existe até hoje. Em cima do antigo Mappin. E no quarto andar é o nosso sindicato. Eu sou sócio número onze do sindicato dos artistas. E a gente veio trabalhando, veio produzindo...mas eu acho que nós não estamos ainda no ápice...eu vi campanha dentro do teatro brasileiro...com a falecida Cacilda Becker, que a gente saía pra rua pra brigar pela autonomia do teatro...essa foi a mulher que mais brigou, que eu senti, que ela brigou pelo teatro. A Nídia Lícia ela foi presidente do Serviço Estadual de Teatro, ali na rua...onde tem a polícia federal...no Largo do Paissandú. Puseram ela lá, mas ela nunca chegou a dar aquele apoio. Nós tínhamos, inclusive, os técnicos de teatro, na época, pelo sindicato, uma verba, não sei se era anual ou mensal de auxílio. Hoje nós não temos nada. Acabou tudo. Eu acredito que de todos esses técnicos, cenotécnicos, cenógrafos, só existe um ou dois...eu, o Gianni Ratto...e umas pessoas que tão aí acompanhando.