Furo na cortina

A visão daqueles que fazem o espetáculo por trás das cortinas

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2007

27.08.07

Tempo de mudança

Caríssimos leitores

Enquanto parte da minha vida está encaixotada, enquanto esperamos a próxima entrevista que será com Max Schiftan atual administrador do Teatro Folha, enquanto isso...fiquem com essa dica essencial para quem quer se divertir:

"Beterrabas, Segredos e Patacoadas"

Commedia dell'Arte infantil inspirada em obra de Oscar Von Pfuhl

Sábados e Domingos - 16h

Teatro Ruth Escobar

Um espetáculo da Confraria do Beco Teatro      

14.08.07

Número 2 S. Careca segunda parte

Eu trabalhei com o Flávio Rangel. Eu tenho o maior orgulho de ter conhecido esse povo todo, porque eram pessoas que amaram o teatro e continuam amando, porque ainda estão vivos e outros que já foram pra Deus, e a gente só tem que fazer lembrança deles, que é o maior orgulho que tem um ser humano depois que ele desencarna. A melhor coisa que tem é quando você tem a lembrança de alguém que você conheceu, que marcou. Essas pessoas, pra mim, marcaram demais. Eu trabalhei com uma mulher, a Nélia Paula, uma grande atriz de revista. Eu não me recordo mais porque a essa altura dos acontecimentos...tô com 70 anos, mas eu continuo dentro do teatro. E espero terminar minha vida dentro do teatro. O falecido Sérgio Cardoso...inclusive eu tenho uma lembrança dele muito positiva depois que ele foi pra Deus. Eu estava trabalhando no Teatro Sérgio Cardoso, que foi inaugurado no dia 13 de outubro de 1980. E eu estava trabalhando lá, fazendo uma montagem que parece, se eu não me engano, foi uma montagem que trouxe a Claudia Raia pro Brasil, de volta. Porque ela morava nos Estados Unidos se eu não me engano. E ela veio pra Brasil com o Walter Clark. O Walter Clark foi o diretor dessa peça. E eu tava fazendo essa montagem junto com mais alguns amigos meus que já foram pra Deus, o falecido Espanhol, o neguinho e outros mais. Eram excelentes profissionais cenotécnicos. Eu olhei e falei : “Puxa vida! Já foi todo mundo embora.” Eu tava no urdimento do Sérgio Cardoso. O urdimento tem 22 metros de altura. Aí eu falei : “Puxa vida! Foi todo mundo embora. Então eu vou terminar o meu serviço aqui e vou descer.” Aí desci as escadarias...quando eu cheguei no palco, que eu fiquei sozinho no palco...porque a platéia do Sérgio Cardoso, a grande, ela é inclinada, ela não é nivelada perante o palco. Então eu escutei um barulho, e eu vi a porta onde entra o público abrir. Ela abriu. Eu vi o Sérgio Cardoso todo branco com um texto na mão. Eu vi ele com um texto na mão, lendo um texto. Naquele momento eu fiquei estático, fiquei parado. Eu parei e...fiz uma oração, um Pai Nosso pra ele. E ele aí, ficou me olhando, recuou e a porta se fechou. Isso é coisa que me emociona. Agora eu, por exemplo, moro aqui no Teatro Artur Azevedo. E, ás vezes, eu até escuto de noite voz de soprano, piano tocando...é super importante, a gente tem que saber que o teatro tem vida, são quatro paredes, é uma caixa. Teatro é uma caixa. Naquilo ali eu organizo o cenário, eu organizo o palco, mas se o artista não estiver lá no palco, eu não tenho a minha...o meu trabalho não foi realizado, porque a presença do artista dentro do teatro é importantíssima. Agora você pra por o artista no palco, a companhia no palco, você que administra, você que faz alguma coisa, você tem que auxiliar, você tem que anunciar. Porque se você não anunciar que o artista tá lá dentro do palco, o público não comparece. Porque a concorrência é enorme. Aquilo que eu citei anteriormente no início do meu relato, hoje existe locadora de filme, hoje tem televisão paga. Mas não é todo povo que tem poder aquisitivo pra isso. Então você tem que ir lá nesse povo e trazer ele pra dentro do teatro. Agora mesmo terminou um projeto aqui da Secretaria Municipal de Cultura, que durou acho que mais de um mês. O maior público aqui parece que foi de noventa pessoas. Quer dizer, você põe um grupo de artistas no palco pra vir sete, oito, doze pessoas, quinze pessoas. Isso tá errado. E é de graça ainda. Não foi pago não. Foi de graça esse projeto que terminou agora. Então eu tenho uma saudade imensa, que eu trabalhava no TBC, em 1957, 58 era copa do mundo na Suíça, Suécia, sei lá eu. Eu trabalhava lá com o Arquimedes, o irmão do Arquimedes, o Pupe, eu trabalhava com esse povo, e eu ficava sentado no primeiro degrau da escada que dá acesso ao porão do palco do TBC grande. E o camarim da falecida Cacilda era do lado. Então ela passava, passava a mão na minha cabeça. Eu ia no Largo do Arouche, na Adega do Arouche, hoje é um tal de grill lá, “não sei o quê” grill. Era um orgulho quando a gente sentava naquelas mesas, com aquelas cadeiras de madeira, eram aquelas mesas longas, vinha todo mundo de teatro, Inesita Barroso, Grande Otelo, Oscarito, Salomé Parísio, que infelizmente hoje ninguém sabe quem foi essa mulher, que foi uma das maiores atrizes que o teatro de revista teve. Foi um monstro dentro do teatro. O Teatro Santana na rua Vinte e quatro de Maio, onde eu tive a honra de trabalhar lá muitos anos, que era ao lado do teatro municipal. Lá o Teatro Santana era uma coisa grandiosa. Hoje é uma galeria.
Agora esse teatro aqui aonde eu estou, Teatro Artur Azevedo, ele é um teatro maravilhoso. Eu fiz a reforma de todos os outros teatros. No governo da Erundina. O único teatro que a Erundina não conseguiu fazer a reforma foi o Teatro João Caetano, lá na Borges Lagoa, na Vila Clementino. Mas os outros teatros ela fez. Quando eu cheguei aqui no Teatro Artur Azevedo em 1991, isso aqui era mato puro. Tava fechado. O falecido Jânio Quadros manteve isso aqui fechado oito anos mais ou menos. Essa bilheteria era de madeira, eu enfiava a orelha do martelo e ela entrava direto, era cupim puro. O palco, os camarins superiores, os camarins inferiores, tudo desajeitado. Ela reformou sem tirar a estética do teatro. Ela e a Marilena Chauí que era secretária da cultura na época. Eles reformaram o prédio sem tirar a estética dele. Porque o Teatro Artur Azevedo, ele é irmão do Teatro João Caetano. Ele é igualzinho. Só que ele tem mais condições. Ele tem entrada de caminhão, entrada de carro, tem estacionamento do lado. E o Teatro João Caetano não tem. Mas foi o mesmo engenheiro que fez esse teatro, em 1972. Porque esse teatro aqui foi inaugurado no dia 2 de Agosto de 1972, com uma peça infantil. Chamava-se “O Príncipe Medroso”. Com a Nídia Lícia e um ator que eu não me recordo o nome agora. O artista brasileiro de teatro é um herói. Porque ele trabalha aqui, ele faz um infantil, esse mesmo artista, ele sai correndo pra fazer um adulto em outro teatro. Ele é versátil. Ele se vira na frente do público. Ele perdeu o texto, ele vai...porque antigamente existia o ponto. Era um cara que ficava na boca de cena, num buraco, com uma coisa cobrindo ele, pra ninguém ver ele, com uma luz ali, e ele com a peça todinha na mão dele, se o artista se perdia, ele ficava ligado, ele dava continuidade na palavra do artista. Esse é o depoimento que eu dou. E vamos torcer para que a gente possa fazer um teatro digno. Uma coisa mais forte, que o governo possa apoiar melhor a classe teatral, porque ela merece, porque como eu disse, os artistas são uns heróis, junto com os técnicos. Porque eu como técnico, que comecei em 1947, hoje é 2004, tenho quase 60 anos de teatro, eu digo, o meu trabalho, ele só é recompensado, quando o artista tá em cena. Se o artista não estiver em cena, não valeu nada o que eu fiz. Mas pra ele estar em cena, eu quero ver o público também na platéia. E pro público estar na platéia, tem que ter incentivo. Do governo. Porque do jeito que tá indo, eu não tô vendo incentivo nenhum. Tô vendo artistas amigos meus, estão todos lutando por uma sobrevivência impressionante. São uns heróis. São uns heróis. Sem eles, eu não seria nada. Comecei com o Grande Otelo, Oscarito, viajei pela Europa, viajei pelo Brasil inteiro, viajei com o Zé Vasconcelos, então eu digo, devo tudo o que eu sou, a pessoa que eu sou, dinâmica, devo ao teatro, e devendo ao teatro estou devendo ao artista brasileiro. Tenho a honra de dizer: São meus amigos. Sem os artistas brasileiros eu não seria nada.

07.08.07

Número 2 S. Careca primeira parte

Depoimento do Sr. Careca

16 de Março de 2004


Eu comecei em 1947. Eu sou Carlos Pereira de Mello, pseudônimo “Careca”. Um homem que começou em teatro em 1947 com Sebastião Prata, mais conhecido como Grande Otelo e Oscar Teresa, mais conhecido como Oscarito. E Violeta Ferraz, a Dona Conchita de Moraes que simplesmente é a mãe da Dona Dulcina de Moraes. De lá pra cá, com treze anos de idade, eu passei a trabalhar com Walter Pinto, com Eva Todor e correndo minha vida pelos teatros. Mais precisamente no Teatro Recreio no Rio de Janeiro, que naquela época você tinha revista e comédia, ópera e opereta, que não existe mais hoje. A Secretaria Municipal da Cultura tem, aqui em São Paulo, dezessete teatros sob a batuta dela. Antigamente eram teatros particulares. Existia o Teatro das Bandeiras, existia o Teatro São Paulo, existia o Teatro Alumínio. A Nicete Bruno e o Paulo Goulart, aqui em São Paulo, começaram no Teatro Alumínio. E eu montei muita peça lá nesse teatro. Ficava na frente de um ponto de bonde que subia a Rua Santo Antônio, ali por trás da Câmara Municipal. Depois eu fui trabalhar no Teatro Brasileiro de Comédia. E lá no Teatro Brasileiro de Comédia eu fiz muita peça lá, trabalhei com a falecida Cacilda na Dama das Camélias no período de, se eu não me engano, 1957 por aí, não sei o período exato. E aí vim tocando a vida, desenvolvendo teatro. Trabalhei com Ciro Del Nero. O TBC foi a primeira escola de “função” cultural aqui em São Paulo. O TBC foi uma coisa assim impressionante. O Teatro Oficina então também foi uma das coisas lindas. Só que a comunidade teatral hoje em dia, ela não é a mesma de antigamente. Porque naquela época não existia televisão. Então o povo, ele ia para o teatro. Hoje existem locadoras de filme, existe a própria televisão, existe televisão à cabo, então fica meio difícil de você combater...e a classe teatral foi se desestabilizando, mas isso não porque...essas coisas né? Porque naquela minha época, antes da televisão, existiam três famílias dentro do teatro brasileiro, que comandavam a classe teatral. E que sinceramente, eu sempre digo, não tenho nada a favor nem contra essas famílias, mas foram famílias que quando surgiu a televisão eles abandonaram o teatro. E nós ficamos órfãos de pai e mãe. Os remanescentes daquela época poderão até, talvez, nem admitir isso que eu estou falando. Mas existia a família Pêra, a família Celestino e a família D’Ávila dentro do teatro brasileiro. Porque era, no momento, quem comandava as coisas no teatro. Era o Vicente Celestino, era o Walter D’Ávila, era o Manuel Pêra, que é pai da Marília. Então a televisão surgiu lá na Urca, tinha o Cassino da Urca, e eles foram pra lá, e aqui em São Paulo foi aqui na Rua das Palmeiras, depois foi na Sete de Abril. A gente ficou assim meio abandonado, porque as pessoas que foram para a televisão, foram e se armaram na televisão. E o teatro foi ficando, foi ficando, foi ficando...e tivemos aqui grandes lutadores pelo teatro de São Paulo. Porque quando eu vim pra cá em 1949, um ano depois que o TBC foi inaugurado...o TBC foi inaugurado em 1948, se eu não me engano. E eu vim no final de 1949. Foi quando eu comecei a trabalhar como cenotécnico. Trabalhei com o Arquimedes, trabalhei com o Jarbas Loto, trabalhei com o Maranhão que foi presidente do sindicato, que liderou o sindicato para a classe teatral. Nós tínhamos uma casa lá em Santo Amaro...não, na Vila Olímpia que era a casa do artista daqui de São Paulo, como foi a casa do artista lá do Rio de Janeiro em Jacarepaguá. Mas que ficou em demanda com um cara que chegou a ser presidente do sindicato dos artistas profissionais, atores, atrizes e técnicos do Estado de São Paulo. Que era na, se eu não me engano, na rua que ia sair ali na Estação da Luz...Cásper Líbero ou Líbero Badaró...já não lembro. Era ali. Dali esse...o Maranhão, em campanha maravilhosa, transformou a nossa sede pra Avenida São João, lá onde existe até hoje. Em cima do antigo Mappin. E no quarto andar é o nosso sindicato. Eu sou sócio número onze do sindicato dos artistas. E a gente veio trabalhando, veio produzindo...mas eu acho que nós não estamos ainda no ápice...eu vi campanha dentro do teatro brasileiro...com a falecida Cacilda Becker, que a gente saía pra rua pra brigar pela autonomia do teatro...essa foi a mulher que mais brigou, que eu senti, que ela brigou pelo teatro. A Nídia Lícia ela foi presidente do Serviço Estadual de Teatro, ali na rua...onde tem a polícia federal...no Largo do Paissandú. Puseram ela lá, mas ela nunca chegou a dar aquele apoio. Nós tínhamos, inclusive, os técnicos de teatro, na época, pelo sindicato, uma verba, não sei se era anual ou mensal de auxílio. Hoje nós não temos nada. Acabou tudo. Eu acredito que de todos esses técnicos, cenotécnicos, cenógrafos, só existe um ou dois...eu, o Gianni Ratto...e umas pessoas que tão aí acompanhando.