Furo na cortina

A visão daqueles que fazem o espetáculo por trás das cortinas

Furo na cortina

A visão daqueles que fazem o espetáculo por trás das cortinas
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Terra Blog

22.08.08

S. Careca

Ontem soube que S. Careca, um dos nossos convidados aqui do blog e um dos cenotécnicos mais antigos do Brasil, faleceu.

Não sei a data exatamente, mas foi há alguns meses.

Ele morava embaixo do palco do Teatro Artur Azevedo, na Móoca. E foi de lá que nos deixou. Dormindo.

Com certeza o elenco lá de cima agora está muito melhor.

31.03.08

Número 3 Max Schiftan segunda parte

Você falou de um técnico novo que chegou assustado uma vez...

Isso aconteceu na Dina (Sala Dina Sfat)...os caras escutavam passos, gente andando. Normalmente as pessoas iam subir lá, e falavam assim: “Tem um barulho lá! Tem alguém andando no palco!” E eu falava: “Porra! Não tem ninguém no palco!” / “Não! Vamo lá comigo!” Tinha cara que não subia sozinho nem ferrando. E não tinha ninguém. Mas você realmente escutava os passos. É aquele negócio, é você acreditar ou não. Eu vi, então eu acredito. Mas tem gente que fala que isso não existe. Agora dentro de teatro antigo isso existe. No municipal já tá provado que existe. E o Ruth Escobar também é um teatro antigo. O Sérgio Cardoso os técnicos velhos do Sérgio: o Gaúcho, o Orlando. Os caras contam que o elevador funciona sozinho a noite. Os caras falam isso até hoje. Os caras são técnicos há muitos anos no Sérgio.

Uma vez eu me lembro de uma fase que foi engraçadíssima, esse programa que a gente tava comentando agora da Bravo Brasil, quem montava era o Estevão, e a gente dava suporte técnico de luz do teatro, e o Estevão levou o filho dele, o Júnior. Então ficava o Júnior e o Ney que é filho do Chimanski pra fazer a montagem. E o Júnior tava uma vez lá no palco de madrugada e tava todo mundo meio dormindo. O programa ia ser de manhã, então tava todo mundo meio dormindo, e de repente esse cara acordou assustado. Ele ouviu um barulho e foi sair correndo. E tava abaixado só os cabos de aço da vara. Ele se enroscou num cabo de aço. Enroscou o pescoço no cabo de aço e saiu do chão, porque ele veio correndo. Então ele se enroscou e ficou gritando. E ficou pendurado. Sem brincadeira. Tava eu, o Paulo que fez aqui as cortinas, o Ney, e o cara se enroscou de assustado, saiu gritando e se enroscou no cabo de aço e quase morreu enforcado por causa dos passos que ele ouviu.

Tem umas coisas no Ruth de técnicos que é engraçado. Teve um técnico que tinha 16 anos quando começou lá no Ruth Escobar a fazer teatro. Dois! Eram dois. Os dois tinham 16. Dois caras que hoje trabalham aqui inclusive. E a gente tava fazendo um espetáculo que era o “Eu sei que vou te amar”. Era a Julia (Lemmertz) e o Alexandre (Borges). E lá tinha uma quartelada que abria. E muita gente no palco, porque era um puta palco pesado. Aí tava o Cláudio e o André carregando uma caixa...os caras são loucos. O André de costas, o Cláudio de frente... “olha o buraco!” Foi falar “olha o buraco!”, o cara caiu no buraco. Sumiu o cara e a caixa dentro do buraco! Isso faz 10, 11 anos. Aquele buraco, se ele cai no chão... eu falei “morreu” ...todo mundo falou “o cara morreu”. Porque a distância do palco até lá embaixoé mais ou menos seis, sete metros. E você caindo de costas com uma caixa no peito, já era. Só que cara, é filme! Tem um patamar. Tem a quartelada e tem um patamar pro cara cair no chão. O patamar é dois metros e o buraco é oito metros. Ele caiu no patamar! Ele abraçado com a caixa, assim, no patamar.

Passagem com ator... A Giorgia Gomide caiu do palco. Na Dina Sfat, o palco da Dina Sfat é relativamente alto. Tem mais ou menos um metro, e tinha uma cena que ela vinha de costas. Ela veio, veio... e caiu na platéia! Mas aí tinha médico e tudo bem.

Teve uma cena, se eu não me engano, no espetáculo “Sexo, chocolate e Zambelê”. Era do Eduardinho Silva, do Aldo (Avilez), do Fernando Petelinkar. Era um espetáculo que rodou São Paulo inteira. E eu tinha um técnico...o Seu Nelson. Velhinho, eletricista. Seu Nelson era muito engraçado. Tava tendo espetáculo. Ele sempre tinha pressa de ir embora. “Eu quero ir embora...preciso ir embora...” E ficava lá enchendo o saco. 10h30 da noite, de repente, “Ô Max!” Ele com a chave dos dimers na mão. E todos os atores gritando: “Ei! Acabou a luz!!!” Ele desligou a chave geral da sala e subiu com a chave na mão. As pessoas na platéia gritando: “Porra acende aí...acabou a luz no teatro!” Ele desligou a luz pra ir embora. “Pô! Seu Nelson! Acabou com a luz do teatro! Liga lá! Não acabou o espetáculo!” / “Porra, pensei que tinha acabado o espetáculo.”
E esse mesmo, o Seu Nelson, teve um espetáculo com a Márcia Real, o Nelson Baskerville, e no final a Márcia Real fazia um sorteio de um brinde. Nesse dia, numa quinta-feira, tava vazio o teatro. O Seu Nelson escreveu o nome da família inteira e colocou na urna. E a Márcia Real fazia o sorteio. O sobrenome dele era Massaro. E a Márcia: “Fulano Massaro!” ...ninguém... “Cida Massaro!” ...ninguém... e o público... “Eh! Só sai pra essa família Massaro?!” A Márcia sorteava “Não sei o quê Massaro!” O Público “Ó lá! Só tem Massaro ali!!!” Ela sorteou o nome da família inteira dele que tava dentro da urna.
Aí no dia seguinte. Ele não tinha ficado nesse dia. Eu falei “Ô, Seu Nelson! O senhor foi sorteado. O senhor ganhou uma passagem. A filha do senhor ganhou uma passagem pra Salvador, Hotel Mediterrané!” Ele era italianinho: “Porra, ma eu num tava aqui?!” / “É melhor o senhor falar com a Márcia Real.” / “Porra, vou te que armá uma descurpa, falá que minha filha tava com dor de barriga, e que foi no banheiro.” E ele foi lá falar com a Márcia Real: “Márcia, cês sortearam a passagem pra Salvador, foi minha filha que ganhou, mas ela tava aqui, é que ela tinha ido no banheiro.” A Márcia: “Seu velhinho safado!”

19.03.08

Número 3 Max Schiftan primeira parte

 

 

Max Schiftan atualmente é administrador do Teatro Folha no Shopping Higienópolis. Este depoimento foi concedido em 08 de outubro de 2003.

Sei lá, acho que história tem. Eu fiz muito tempo show. Eu viajei com show. Aí na verdade eu comecei a administrar teatro, mais ou menos em 83, 84. Comecei lá no Teatro Carlos Gomes no Rio. Que era um teatro que o Poladian comprou, ele arrendou esse teatro pra fazer alguns espetáculos no Rio. Então nós fomos lá pra cuidar do teatro.Você imagina um teatro antigo, na praça Tiradentes, nós paulistas, paulistanos, com um monte de técnico carioca, que estavam acostumados com o ritmo do Rio de Janeiro que é todo diferente, não que lá seja ruim, lá tem ótimos técnicos, lá tem gente maravilhosa, os iluminadores lá são maravilhosos. Mas era outro ritmo. A gente chegando de São Paulo na praça Tiradentes, um negócio meio: Tiradentes, Largo da Carioca que um lugar que é o Rio de Janeiro puro. Que é a mesma coisa que você vim do Rio e chegar aqui na Bela Vista, chegar dez caras do Rio e: “agora nós vamos tomar conta desse teatro na Bela Vista”. Foi meio complicado, mas depois a história vai se ajeitando, porque era um teatro maravilhoso. Teatro Carlos Gomes, era um teatro que estava todo caindo. Aí nós fizemos reforma, fizemos banheiro, camarim, quer dizer, nós fizemos uma puta reforma no teatro. Estreou, eu lembro que estreou a Miriam Rios, ela estreou esse teatro. Na época ela tava com o Roberto Carlos, era um espetáculo infantil, era uma Cinderela, Roberto Carlos ia assistir os ensaios. Estreou, ficou um tempo em cartaz, foi bem, claro, teatro da mídia, na época era uma puta mídia aquele teatro. Aí foi tempo, teve Ney Matogrosso lá, aí já era mais Show. E aí nós fizemos um carnaval no Rio de Janeiro, porque no Carlos Gomes há muitos anos atrás faziam um carnaval, aqueles carnavais tradicionais, bailes à fantasia do Rio de Janeiro, e nós fizemos um baile de carnaval. Tentaram fazer com que tivesse de novo os bailes de carnaval do Rio, não rolou, teve uma noite só o carnaval e acabou. Foi uma noite de carnaval. Foi daí que nós voltamos do Rio. Fechou o teatro lá, hoje o teatro tá na mão do Aderbal Freire. Aí volta pra São Paulo, depois de um tempo, eu peguei o Ruth Escobar, viajei com algumas peças, mas a minha vida era mais no Ruth Escobar. Desde 89. E no Ruth né? Três salas, um teatro enorme, e sempre tem algumas passagens. Todo mundo fala “Não! Você é maluco! Porque você viu isso!” Uma vez eu tava no porão, o porão do Ruth Escobar, o porão da Gil Vicente. Lá é o porão mais tradicional de São Paulo, acho que é o porão mais famoso de São Paulo, que é o do Ruth Escobar, da Gil Vicente. Dizem que aquele porão era um cemitério indígena. Dizem não! É verdade! Quem viveu ali sabe que o porão da Gil Vicente era um cemitério indígena. Ali é um morrão. Porque se você desce do saguão do Ruth até lá em baixo é um prédio de oito andares pra baixo, até o porão. Ali era um cemitério. E ali alagava. Porque ali tinha uma fossa, que tem até hoje, e aquela fossa transbordava. Então você imagina que aquele porão, que é um porão alto pra caralho, ficava lotado de merda. Era só merda aquele porão interio. E aí você tinha que entrar pra pegar alguma coisa lá e você tinha que entrar na merda. Porque o porão ficava lotado de merda. Ele ficava assim uns, dava um metro de merda. Ali se falava que morreu um cara, que morreu um eletricista. Eu não sei se é verdade isso, em 62, 63, um cara tinha morrido na parte elétrica. Porque a água cobria tudo, inclusive a parte debaixo do palco e os atores ficavam em cima, e subia um puta cheiro, e aquilo invadia pro público. Mas mesmo assim lotava, porque teve o Ubu lá lotado, Almanaque Brasil lotado, mesmo nessa época que ficava um puta cheiro de fossa, porque é inevitável né? Aí depois fizemos o encanamento. Isso resolveu. Bombeava água pra rua. Mas no começo era isso mesmo. No começo, isso já em 80...porque o teatro Ruth Escobar foi reformado do saguão pra cima, e do saguão pra baixo ele não foi reformado. Ficou como era desde 63, que estreou o teatro com a Ópera dos três vinténs. Estreou em dezembro de 63, acho que dia 03 de dezembro de 63, se não me engano, que abriu o Ruth Escobar. Aí eu me lembro um dia que eu tava sozinho lá na sala Gil Vicente, eu tava pintando parede. Tem gente que não acredita, tem gente que acretida. Eu tava pintando sozinho lá. Aí eu vi uma mulher subindo as escadas do camarim. Continuei lá né. Aí eu olhei assim de novo a mulher voltou. Eu tô sozinho, vou ver quem é. Aí eu subi, quando cheguei, falei: “Cara quem é essa mulher que tá andando por aí?” Aí o Zé Carlos, que era um cara que tinha lá, Zé Carlos era um cara que cuidava lá...disse: “Não! Não tem ninguém no teatro. Só tá eu e você.” Falei: Não! Nem fudendo. A mulher passava lá, tô pintando aqui e essa mulher passando ali. Porque lá tem uma passarela que é dos camarins. Na boa, eu procurei, procurei, revirei o teatro e não achei essa mulher. E conversando com as pessoas, “aqui foi cemitério indígena, até pode rolar”, sei lá...

 

27.08.07

Tempo de mudança

Caríssimos leitores

Enquanto parte da minha vida está encaixotada, enquanto esperamos a próxima entrevista que será com Max Schiftan atual administrador do Teatro Folha, enquanto isso...fiquem com essa dica essencial para quem quer se divertir:

"Beterrabas, Segredos e Patacoadas"

Commedia dell'Arte infantil inspirada em obra de Oscar Von Pfuhl

Sábados e Domingos - 16h

Teatro Ruth Escobar

Um espetáculo da Confraria do Beco Teatro      

14.08.07

Número 2 S. Careca segunda parte

Eu trabalhei com o Flávio Rangel. Eu tenho o maior orgulho de ter conhecido esse povo todo, porque eram pessoas que amaram o teatro e continuam amando, porque ainda estão vivos e outros que já foram pra Deus, e a gente só tem que fazer lembrança deles, que é o maior orgulho que tem um ser humano depois que ele desencarna. A melhor coisa que tem é quando você tem a lembrança de alguém que você conheceu, que marcou. Essas pessoas, pra mim, marcaram demais. Eu trabalhei com uma mulher, a Nélia Paula, uma grande atriz de revista. Eu não me recordo mais porque a essa altura dos acontecimentos...tô com 70 anos, mas eu continuo dentro do teatro. E espero terminar minha vida dentro do teatro. O falecido Sérgio Cardoso...inclusive eu tenho uma lembrança dele muito positiva depois que ele foi pra Deus. Eu estava trabalhando no Teatro Sérgio Cardoso, que foi inaugurado no dia 13 de outubro de 1980. E eu estava trabalhando lá, fazendo uma montagem que parece, se eu não me engano, foi uma montagem que trouxe a Claudia Raia pro Brasil, de volta. Porque ela morava nos Estados Unidos se eu não me engano. E ela veio pra Brasil com o Walter Clark. O Walter Clark foi o diretor dessa peça. E eu tava fazendo essa montagem junto com mais alguns amigos meus que já foram pra Deus, o falecido Espanhol, o neguinho e outros mais. Eram excelentes profissionais cenotécnicos. Eu olhei e falei : “Puxa vida! Já foi todo mundo embora.” Eu tava no urdimento do Sérgio Cardoso. O urdimento tem 22 metros de altura. Aí eu falei : “Puxa vida! Foi todo mundo embora. Então eu vou terminar o meu serviço aqui e vou descer.” Aí desci as escadarias...quando eu cheguei no palco, que eu fiquei sozinho no palco...porque a platéia do Sérgio Cardoso, a grande, ela é inclinada, ela não é nivelada perante o palco. Então eu escutei um barulho, e eu vi a porta onde entra o público abrir. Ela abriu. Eu vi o Sérgio Cardoso todo branco com um texto na mão. Eu vi ele com um texto na mão, lendo um texto. Naquele momento eu fiquei estático, fiquei parado. Eu parei e...fiz uma oração, um Pai Nosso pra ele. E ele aí, ficou me olhando, recuou e a porta se fechou. Isso é coisa que me emociona. Agora eu, por exemplo, moro aqui no Teatro Artur Azevedo. E, ás vezes, eu até escuto de noite voz de soprano, piano tocando...é super importante, a gente tem que saber que o teatro tem vida, são quatro paredes, é uma caixa. Teatro é uma caixa. Naquilo ali eu organizo o cenário, eu organizo o palco, mas se o artista não estiver lá no palco, eu não tenho a minha...o meu trabalho não foi realizado, porque a presença do artista dentro do teatro é importantíssima. Agora você pra por o artista no palco, a companhia no palco, você que administra, você que faz alguma coisa, você tem que auxiliar, você tem que anunciar. Porque se você não anunciar que o artista tá lá dentro do palco, o público não comparece. Porque a concorrência é enorme. Aquilo que eu citei anteriormente no início do meu relato, hoje existe locadora de filme, hoje tem televisão paga. Mas não é todo povo que tem poder aquisitivo pra isso. Então você tem que ir lá nesse povo e trazer ele pra dentro do teatro. Agora mesmo terminou um projeto aqui da Secretaria Municipal de Cultura, que durou acho que mais de um mês. O maior público aqui parece que foi de noventa pessoas. Quer dizer, você põe um grupo de artistas no palco pra vir sete, oito, doze pessoas, quinze pessoas. Isso tá errado. E é de graça ainda. Não foi pago não. Foi de graça esse projeto que terminou agora. Então eu tenho uma saudade imensa, que eu trabalhava no TBC, em 1957, 58 era copa do mundo na Suíça, Suécia, sei lá eu. Eu trabalhava lá com o Arquimedes, o irmão do Arquimedes, o Pupe, eu trabalhava com esse povo, e eu ficava sentado no primeiro degrau da escada que dá acesso ao porão do palco do TBC grande. E o camarim da falecida Cacilda era do lado. Então ela passava, passava a mão na minha cabeça. Eu ia no Largo do Arouche, na Adega do Arouche, hoje é um tal de grill lá, “não sei o quê” grill. Era um orgulho quando a gente sentava naquelas mesas, com aquelas cadeiras de madeira, eram aquelas mesas longas, vinha todo mundo de teatro, Inesita Barroso, Grande Otelo, Oscarito, Salomé Parísio, que infelizmente hoje ninguém sabe quem foi essa mulher, que foi uma das maiores atrizes que o teatro de revista teve. Foi um monstro dentro do teatro. O Teatro Santana na rua Vinte e quatro de Maio, onde eu tive a honra de trabalhar lá muitos anos, que era ao lado do teatro municipal. Lá o Teatro Santana era uma coisa grandiosa. Hoje é uma galeria.
Agora esse teatro aqui aonde eu estou, Teatro Artur Azevedo, ele é um teatro maravilhoso. Eu fiz a reforma de todos os outros teatros. No governo da Erundina. O único teatro que a Erundina não conseguiu fazer a reforma foi o Teatro João Caetano, lá na Borges Lagoa, na Vila Clementino. Mas os outros teatros ela fez. Quando eu cheguei aqui no Teatro Artur Azevedo em 1991, isso aqui era mato puro. Tava fechado. O falecido Jânio Quadros manteve isso aqui fechado oito anos mais ou menos. Essa bilheteria era de madeira, eu enfiava a orelha do martelo e ela entrava direto, era cupim puro. O palco, os camarins superiores, os camarins inferiores, tudo desajeitado. Ela reformou sem tirar a estética do teatro. Ela e a Marilena Chauí que era secretária da cultura na época. Eles reformaram o prédio sem tirar a estética dele. Porque o Teatro Artur Azevedo, ele é irmão do Teatro João Caetano. Ele é igualzinho. Só que ele tem mais condições. Ele tem entrada de caminhão, entrada de carro, tem estacionamento do lado. E o Teatro João Caetano não tem. Mas foi o mesmo engenheiro que fez esse teatro, em 1972. Porque esse teatro aqui foi inaugurado no dia 2 de Agosto de 1972, com uma peça infantil. Chamava-se “O Príncipe Medroso”. Com a Nídia Lícia e um ator que eu não me recordo o nome agora. O artista brasileiro de teatro é um herói. Porque ele trabalha aqui, ele faz um infantil, esse mesmo artista, ele sai correndo pra fazer um adulto em outro teatro. Ele é versátil. Ele se vira na frente do público. Ele perdeu o texto, ele vai...porque antigamente existia o ponto. Era um cara que ficava na boca de cena, num buraco, com uma coisa cobrindo ele, pra ninguém ver ele, com uma luz ali, e ele com a peça todinha na mão dele, se o artista se perdia, ele ficava ligado, ele dava continuidade na palavra do artista. Esse é o depoimento que eu dou. E vamos torcer para que a gente possa fazer um teatro digno. Uma coisa mais forte, que o governo possa apoiar melhor a classe teatral, porque ela merece, porque como eu disse, os artistas são uns heróis, junto com os técnicos. Porque eu como técnico, que comecei em 1947, hoje é 2004, tenho quase 60 anos de teatro, eu digo, o meu trabalho, ele só é recompensado, quando o artista tá em cena. Se o artista não estiver em cena, não valeu nada o que eu fiz. Mas pra ele estar em cena, eu quero ver o público também na platéia. E pro público estar na platéia, tem que ter incentivo. Do governo. Porque do jeito que tá indo, eu não tô vendo incentivo nenhum. Tô vendo artistas amigos meus, estão todos lutando por uma sobrevivência impressionante. São uns heróis. São uns heróis. Sem eles, eu não seria nada. Comecei com o Grande Otelo, Oscarito, viajei pela Europa, viajei pelo Brasil inteiro, viajei com o Zé Vasconcelos, então eu digo, devo tudo o que eu sou, a pessoa que eu sou, dinâmica, devo ao teatro, e devendo ao teatro estou devendo ao artista brasileiro. Tenho a honra de dizer: São meus amigos. Sem os artistas brasileiros eu não seria nada.